Capítulo 2: A porta por fora
A tinta do selo escorria pela madeira quando Dário Venn ainda não tinha atravessado o vão. A chuva gelada vinha das grelhas em fios finos, batia no formol do colarinho e fazia o bilhete funerário colar à pele como se o Necromante pudesse ser marcado por papel, não por sangue. A marca de Orun Falc brilhava úmida acima da hora da manhã, e o oco no peito latejou no mesmo ritmo da ferrugem que cantava dentro da parede.
Ele empurrou a porta um palmo. O corredor não tinha a cor que a mão esperava. Um casaco no gancho cheirava a chuva antiga e a um sabão que ele não soube nomear. No assoalho, a água da soleira já desenhava um caminho que não era de quem mora, e sim de quem entra para inspecionar. Do lado de dentro, os trilhos que não deveriam estar ali repetiram o nome de Ilyra Venn, baixo, partido. Dário Venn não cruzou o vão. Segurou a fresta com o ombro, a chave ainda na palma, e escutou a casa como se ela pudesse devolver a frase que o cano lhe tinha recusado na escada.
Passos molhados ganharam os últimos lances. A lanterna amarela do vigia varreu primeiro o selo, depois o peito, depois o joelho de Dário Venn, que ainda não tinha se dobrado.
— Você subiu com isso atrás — disse o vigia. — Eu falei que denunciava.
— Denuncia — respondeu Dário Venn. — Depois que eu fechar a porta.
— Não fecha. Orun Falc recenseia de manhã. Sucata na escada vira culpa de quem estiver em pé nela. Agora a sucata está no seu patamar.
Atrás do f…
A amostra acaba aqui.
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