Capítulo 1: O lastro na escadaria
Dário Venn subiu os primeiros degraus depois da catraca com a chuva gelada cortando as grelhas e o formol ainda preso no colarinho, e a rampa inferior de Caldria o tratou como tratava qualquer funcionário atrasado, não como Necromante. O bilhete funerário ia colado ao peito, fibra molhada, nome queimado, em cima do oco que latejava sem lhe devolver o que faltava. Atrás, a lanterna amarela de Maíra Solen ainda varria o metal; à frente, a escadaria suava concreto e ferrugem, subindo para as camadas vivas onde a casa esperava.
— Meio-dia, Dário Venn.
A voz de Maíra Solen atravessou a chuva sem se apressar. Ela não o seguia. Permanecia onde o caderno de lona pedia nomes.
— O lastro no meu colo ou o seu nome na coluna de perda — continuou. — Orun Falc não assina prazo. Eu assinei. Não me faça raspar tinta.
Dário Venn não virou o rosto. A palma encontrou o corrimão frio.
— Eu fecho o vazamento — disse. — Sem selo. O lastro chega.
— Chega ou some registrado. Não existe terceira linha no meu caderno.
Ele subiu.
O cheiro mudou no segundo lance: óleo barato, papel velho, ferrugem doce. A chuva não caía ali de verdade; atravessava as grelhas em fios finos e estalava no concreto como se o prédio tivesse febre. Trilhos antigos corriam dentro das paredes, um canto baixo demais para ser máquina. Dário Venn pôs a mão no peito, não para o bilhete, para o oco. Ilyra Venn tinha ecoado na catraca. Ele ainda acreditava que os trilhos não mentiam. O que o oco tinha guardado, porém, não voltava só porque ele apertava a costela.
No terceiro lance o frio ficou mais denso que a chuva.
Não era vento. Era puxão. Formas sem peso subiam o corrimão do lado de dentro, bocas sem nome, papel molhado onde deveria haver pele. Vinham de uma fresta entre dois lances, uma boca de estação que o concreto fingia ter engolido. Iam para cima. Para as camadas vivas. Para o patamar onde a casa dele ficava.
Um vigia surgiu no descanso, lanterna amarela na altura do queixo, o mesmo amarelo da rampa, o mesmo medo.
— Funcionário do poço — disse. — Essa escada está interditada pelo recenso de Orun Falc. Sucata espectral sobe quando chove. Volta para baixo.
— Se eu voltar, eles passam da minha porta.
— Então perde a porta. Gente sem selo não segura linha. Orun Falc manda peito aberto para quem insiste.
Dário Venn olhou as formas. Olhou o vigia. Olhou o bilhete. Maíra Solen tinha lhe dado um dia. O dia ainda não tinha começado. A casa, sim.
— Sai da frente.
— Você é o quê? Carregador de formol? Não me faça chamar a rampa.
O vigia não recuou. Subestimava o colarinho molhado, a carteira do necrotério, o homem que subia sem selo. Dário Venn puxou o bilhete do peito. A fibra grudou nos dedos. Ele não gritou fórmula. Não explicou nada. Apertou o papel contra o corrimão enferrujado, no ponto em que o frio era mais antigo, e sentiu o oco abrir um palmo a mais.
A lembrança saiu como fio de água.
Ele soube, no mesmo gesto, que tinha havido palavras. Ilyra Venn as tinha dito junto a um cano de água, três batidas, uma frase curta para avisar que estava em casa. A boca de Dário Venn se abriu para repetir a frase e encontrou só o gosto de formol. O vínculo não sumiu. O nome não sumiu. A frase, sim. O cano na parede ficou sendo só cano.
Uma das formas estalou no metal, colada ao bilhete como papel de embalagem molhado. As outras não pararam. Subiam. Mais finas. Mais rápidas.
O vigia recuou meio passo, a lanterna tremendo.
— O que você fez?
— Pouco — disse Dário Venn, e a voz saiu rouca de quem acaba de perder chão interno. — Não chega.
— Tira isso daqui. Orun Falc vai recensear esta camada de manhã. Sucata na escada vira culpa de quem estiver em pé nela.
— Então apaga a lanterna e deixa eu chegar na porta.
— Eu não apago nada. Eu denuncio.
Dário Venn olhou o bilhete. Ainda havia espaço nele. Ainda havia espaço no peito para ser comido. Maíra Solen queria lastro ao meio-dia. Ele podia gastar o resto agora, pregar as formas todas no corrimão, subir depois como homem oco até a casa. A mão tremeu. Ele não apertou de novo. Dobrou o papel, fibroso, mais pesado, e enfiou-o de volta no peito.
— Não — disse, para o vigia, para o corrimão, para si. — Não esta noite.
A decisão ficou visível no gesto: o polegar fechando o bolso, o corpo já se virando para os lances de cima, os degraus ganhos de três em três. O vigia gritou um regulamento que a chuva comeu. As formas sem nome continuaram a subir, mais lentas no trecho onde uma delas ficara presa, ainda assim subindo.
Dário Venn alcançou o patamar da casa com o formol queimando o pescoço e o oco maior do que na catraca. A porta era dele porque a fechadura aceitou a chave, não porque ele reconhecesse a cor. Do lado de dentro da parede, trilhos que não deveriam estar ali cantaram baixo, e o canto partiu o nome de Ilyra Venn como voz de estação vazia. Colado à madeira, ainda úmido, havia um selo de recenso com a marca de Orun Falc e a hora da manhã impressa acima do prazo que Maíra Solen tinha escrito no caderno.
